Rogue One – A Star Wars story

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Um dos mais aguardados filmes de um ano cheio de grandes lançamentos, Rogue One – A Star Wars Story se tornou um divisor de águas na vibrante mitologia da franquia, estabelecendo uma dimensão humana em um universo povoado por lendas, desenvolvendo uma gama de personagens de motivações mais complexas onde antes predominava o maniqueísmo e realizando o potencial de um universo que até agora vivia na imaginação dos fãs, mas ainda não mostrado.

Screen-Shot-2016-04-07-at-13.55.20Rogue One é divertido até dizer chega, é lindo, emocionante e, no fim, doloroso, quando os personagens são confrontados com seus limites. Este não é um filme sobre heróis arquetípicos que desfilam na tela superando todos os obstáculos com coragem, talento e uma sorte inacreditável até alcançar a vitória, mas uma história onde indivíduos idealistas, mesquinhos ou simplesmente deslocados (rogues) se entregam totalmente a uma causa que reconhecem maior que qualquer um deles e que vale seu sacrifício. É uma história onde humanos entram em choque com humanos e todos dão tudo em troca de vitórias efêmeras. Heróis anônimos que lutam, sofrem e tombam para mostrar o caminho para os heróis que vão concluir essa jornada.

No universo ficcional de Star Wars, a República democrática não suportou as tensões internas e as maquinações para substitui-la por um estado totalitário e forte, o Império Galáctico que oferece “segurança e paz” para uma sociedade intimidada pela incerteza. Na escalada pelo poder absoluto na Galáxia, começa a ser desenvolvida a Estrela da Morte, uma superarma capaz de destruir planetas inteiros e garantir a submissão dos últimos focos de oposição, representados pela Aliança Rebelde, uma força irregular de idealistas e desesperados que tenta restaurar a República ou simplesmente se vingar do sofrimento causado pela ação do Império.

Os rumores crescentes sobre a construção da superarma levam à busca do Engenheiro-Chefe do projeto, Galen Erso (Mads Mikkelsen), um cientista genial que imaginou uma forma de armazenar e canalizar energia em escala nunca antes vista, mas com fins pacíficos, e acaba refém do Império quando sua esposa é assassinada e sua filha desaparece.  A história de Rogue One começa com a descoberta dessa filha, Jyn Erso (Felicity Jones) oculta por inimigos do Império e que agora pode obter do pai informações que permitam enfrentar essa ameaça aos últimos combatentes da liberdade.

star-wars-timelineO roteiro de Rogue One se afasta da história da família Skywalker e a épica Jedi e foca nas pessoas comuns, os personagens com vidas arruinadas e truncadas que partem para enfrentar o Império sem poderes ou um destino especial. Não se aprofunda muito nas motivações de cada um, ao contrário, assume-se que qualquer pessoa decente deve se opor aos métodos e objetivos do Império, quando nós todos sabemos que as coisas são mais complexas que isso. Os heróis do filme, um bando de renegados e desajustados no estilo mais clássico do western e cinema bélico, dos quais Star Wars se nutriu desde a sua origem, avança até o final motivado por um misto do idealismo de Chirrut Imwe (Donnie Yen) um usuário da Força que nunca vai se tornar um Jedi; a busca da propria identidade de Jyn, separada da família ainda criança e criada como uma marginal; o obscuro desejo de vingança do amargo capitão Cassian Andor (Diego Luna) ou simplesmente pela amizade incondicional de Baze Malbus (Jian Wen) que acompanha Chirrut porque sim; ou nenhuma das anteriores, mas algo totalmente vago, como no caso do piloto imperial Bohdi Rook (Riz Ahmed), praticamente não desenvolvido ao longo do filme, e provam que ninguém é insignificante ou fraco demais para fazer a diferença na luta contra uma força infinitamente superior em recursos e absolutamente sem escrúpulos.

it-looks-bleak-for-the-rebel-alliance-inO tradicional maniqueísmo Aliança Rebelde / Império Galáctico é trabalhado de uma forma mais sutil que admite nuances: os rebeldes são idealistas e altruístas mas entre eles também há quem ache que os fins justificam os meios, mesmo quando isso os torna perigosamente parecidos aos seus inimigos, mas no final, quando a perspectiva da derrota parece certa, se lançam a uma batalha desesperada arriscando absolutamente tudo com um desprendimento (e júbilo) que os reconcilia com o público, que vai ao cinema em busca de heróis facilmente reconhecíveis. Por outro lado, o Império, sustentando pelo discurso de Ordem e Segurança, atua como uma bem lubrificada máquina desprovida de qualquer traço de humanidade, na qual todos são igualados e uniformizados no emblemático uniforme dos stormtroopers, representando uma única inteligência e vontade, onde mesmo pequenos traços de heroísmo, são anulados e suas vidas, um recurso descartável. Enquanto os Rebeldes podem rir e chorar ou se encolher de medo ante um perigo avassalador, os troopers simplesmente avançam, esmagando tudo no seu caminho e tombando de forma anônima. A dimensão humana do Império apenas é perceptível aqui e ali na forma de disputas mesquinhas entre seus altos oficiais, que lutam por cargos e vantagens, alheios ao sofrimento que causam ao seu redor, burocratas para os quais milhões de vidas destruídas representam apenas uma marca em uma planilha que pode determinar uma promoção por alcançar as metas de projetos megalomaníacos.

Rogue One é um momento de inflexão na série inteira, a série cresceu e amadureceu (da mesma forma que seu público que a acompanha há quarenta anos!), e está finalmente pronta para revelar uma galeria de novos personagens e histórias que refletem a nós mesmos e desenvolver finalmente o potencial prometido das épicas batalhas espaciais e de um Darth Vader no seu auge, como um impiedoso comandante militar e um insuperável guerreiro capaz de virar sozinho uma batalha (posso ter aplaudido a aparição do Lorde Sith no filme, mas também fiquei com muita pena das suas vítimas…)

Finalmente, se é possível definir Rogue One em uma expressão, ela é “fan service“. É um filme que pode ser desfrutado por todos os público, rico e profundo na medida certa de um blockbuster baseado em um universo venerável, mas, para os fãs, é um exercício de nostalgia que recolhe cada fragmento dos filmes originais e os transforma em pequenas pérolas que vão pipocando na tela e nos absorvendo cada vez mais na história que se se desenrola em um universo vivo e vibrante que ainda tem muito, mas muito mesmo a oferecer.

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